#081.01 Quem casa, quer casa

Você mora em SP e trabalha numa Tech & Co.
Já passaram por você: o dinamismo cultural, formação e informação sempre à mão, a vida noturna, infinitas possibilidades de encontro.
A fatura chega, uns anos depois. O trânsito é impraticável, a insegurança é real, a baixa qualidade do ar e da água, a estrutura urbana & comunitária deficientes. Tudo ficou caro demais. Agora você vai ter uma família.
Vai ao escritório somente uma 1x por semana. Olha que ainda estamos em 2017! Mas 2 décadas antes, já, a popularização da internet cunhou o termo home office.
Home office. Teletrabalho. Trabalho à distância. Trabalho on-line. Smart work.
Às vezes parece que isso só surgiu a partir da Covid-19. Mas a partir de 2011 a CLT também já previa as condições pro exercício do trabalho à distância.
A encomenda dessa casa já vestia essa camisa. Em 2017.
Foram minhas primeiras apresentações de projeto por Zoom…
Daí você compra um terreno no pé da Serra do Japi, entre as Rod. Anhanguera e Rod. dos Bandeirantes, em Jundiaí, a 60 km da Sé.
“Quem casa, quer casa”, diz o ditado.
E te diz o arquiteto, por outro lado: quem deixa um apartamento metropolitano, quer a amplitude do horizonte. Espaços largos. Sentir a brisa cruzar o vazio — e um raio de sol que o preenche. Quer brincar com água — e com o fogo.
Jardim, cachorro, gato & periquito — muito embora nem sejam tão compatíveis assim!


#081.02 Descobrimentos

O arquiteto concebe a sua casa a partir de um sentimento. Você vai viver ali. Vai ser a sua casa.
Você precisa garantir que o arquiteto entenda de construção. E de arte. E de desenho técnico, geometria, resistência dos materiais e conforto ambiental também. Mas, o mais importante é que ele entenda de você.
Seu projeto começa por aí. Eu tenho um lugar e tenho pessoas. São as variáveis fundamentais da arquitetura.
Nós vamos, juntos, listar os ambientes e equipamentos que você precisa (ou gostaria de) ter no seu projeto. Vamos chamar de programa de necessidades essa lista.
E com isso estamos definindo qual o tipo de edificação nós vamos projetar. Aqui, uma residência unifamiliar de alto padrão em um condomínio de lotes. Um sobrado com 4 dormitórios. Vamos chamar isso de tipologia.
Mas eu preciso conhecer você. Preciso conhecer seus hábitos. As histórias passadas e as que você quer escrever. — O tipo de responsabilidade que não vem nunca descrita no RRT (Registro de Responsabilidade Técnica). E a que verdadeiramente importa.
Qual sentimento eu posso provocar em você com a arquitetura desse ambiente? Quais sentidos são aguçados com os materiais que eu estou usando? Eu sempre me pergunto isso, em cada decisão de projeto.
Vai ver é por isso que arquitetura não pode ser totalmente explicada, se não vivenciada. Você não vai ter a absoluta compreensão de um projeto vendo seu material gráfico ou tour virtual.
A espacialidade e a materialidade de uma construção falam diretamente com o lugar e com a pessoa. Coisa que não cabe nas “telas grandes dos seus lares nem pequenas dos seus celulares” (parafraseando Gustavo “Black Alien”).
Ainda assim, você vai “construir do zero”. Vai colocar seu próprio bloco na construção da sua cidade. Mas meus melhores projetos saem da melhor sinergia promovida entre nós, cliente & arquiteto.
Confiança aqui é a palavra-chave. Não apenas a confiança na relação profissional e interpessoal, mas também a autoconfiança. A segurança que você precisa ter para decidir e para agir.
Quero concluir esse devaneio com trechos de uma entrevista concedida a Vladimir Belogolovsky por Paulo Mendes da Rocha (2028-2021), arquiteto capixaba reconhecido com as maiores honrarias internacionais do nosso meio.
“É impossível ensinar arquitetura, mas você pode educar as pessoas para se tornarem arquitetos. Tudo que é preciso é inteligência. […] Cada projeto é uma emergência. Você tem que ir lá e ver o que precisa ser feito. Você apenas pode ensinar arquitetos a pensar ao empoderá-los com conhecimento e ferramentas. […] Confiança é importante, não apenas conhecimento. Cada problema exige reflexão, e não soluções prontas. Você sabe que não sabe, mas existe uma urgência em fazer alguma coisa. É preciso descobrir o conhecimento – esta é a questão.”
Seguiremos adiante em busca dos nossos descobrimentos.

#081.03 500 e poucos m²

Preciso descobrir esse “pouquinho de Brasil iaiá” (Ary Barroso). 500 e poucos m², precisamente.
Um lote urbano de 14m de frente por 36m de profundidade.
O norte voltado para os fundos do terreno onde o muro do condomínio faz divisa com outro condomínio vizinho. Dos lados, os dois vizinhos já construíram.
Da esquerda pra direita um declive de 2m. Pro fundo, 1m.
Nós chamamos de implantação, a prática de estudar um lugar para decidir onde e como vamos erguer nossa construção. Implantar bem é o primeiro grande desafio da arquitetura.
Via de regra, você vai ter que decidir se tira partido dos desníveis do terreno, ou aplaina todo o terreno, ou eleva a construção com pilares sobre o terreno natural, por exemplo.
#081.04 Cláusulas pétreas

A esse tipo de processo de tomada de decisão — a identificação dos problemas a serem resolvidos, o endereçamento de uma solução para cada um dos problemas levantados — demos o nome de partido arquitetônico.
Você vai ouvir falar muito disso nas conversas entre arquitetos. É basicamente o que faz um projeto ser bom ou ruim. Simples assim.
“Pau que nasce torto nunca se endireita” — (aqui, vou te poupar da referência…!). Mas um projeto tem sim que começar direito. Precisa de um bom partido. Você vai avaliar seu projeto entendendo o partido. A resposta conceitual aos problemas estabelecidos.
Eu quero que você entenda que o processo de projeto de arquitetura é uma sequência decisões em rede. Cada decisão tomada, cada problema resolvido, gera outros problemas e outras decisões a serem tomadas.
De um certo modo, a gente pode escolher os problemas que quer colocar na mesa. Outros são postos. São dados. Mas a gente ainda pode decidir quais problemas são obrigatórios, prioritários ou supérfluos.
Chamamos esses problemas de condicionantes.
Em suma. O partido arquitetônico deve atender ao programa de necessidades ao mesmo tempo em que responde às condicionantes geográficas, construtivas, econômicas, ambientais, sociais e legais — pelo menos.
Na prática, eu acabo acordando com você que certos parâmetros do projeto são fixos e inegociáveis. Cláusulas pétreas do nosso quadro projetual.
Pra facilitar a conversa, vamos chamando de premissas essas partes do projeto que já ficam resolvidas. Podemos adequar partes do projeto para atender, mas não as nossas premissas.


#081.05 Uma casa no chão

Voltamos a falar da implantação.
Eu quero colocar essa casa no chão. Parece óbvio, e simples. Quase é mesmo. Mas não é fácil, certeza. Colocar uma casa no chão é dar a sensação de que aquela construção estava sempre ali.
Quero poder sair da casa para o quintal sem grandes degraus. Vamos ter apenas o que chamamos de desnível de soleira. Qualquer coisa como 2-3cm pra impedir a entrada de água.
E se o terreno tem 2m de declive nos 14m da sua largura, eu tenho que decidir em qual altura (ou, cota de nível) vou implantar a casa.
Minha solução de implantação já começa então a sugerir outras soluções, agora de arquitetura.
Vou locar o plano térreo da casa de forma que, enquanto do lado baixo eu saio sem degraus, do outro lado eu tenho um jardim elevado. Posso fazer uma janela com peitoril de 1,2-1,5m de altura que se abre para um jardim.
Eu quero sentir a presença do jardim pra todo o lugar que eu olhar.
Isso é um partido. Fez sentido pra você. Era isso que você queria. Não imaginava que isso era possível. Você não era capaz de conceber isso na sua mente. Você não tinha as ferramentas necessárias pra isso. Mas vendo esse projeto — ainda por cima, todo em 3D — tudo se conectou.
É tão boa a sensação de ver resolvido um problema que você nem sabia que tinha. Você fica sabendo que desde que esteja em boas mãos as coisas sempre vão fluir.
Esse é o tipo de confiança que a gente busca na nossa prática profissional.

#081.06 Home office goals

Bem no meio da casa nós criamos um jardim interno que setoriza o programa e organiza toda a circulação vertical e horizontal. O jardim não é como um átrio central, fechado de todos os lados, mas uma reentrância no volume principal da construção.

Vamos falar bastante de volumes. Volumetria. É uma maneira de enxergar massas — e de falar delas —, independentemente da forma específica que tenha sido desenhada. Sem mistérios. Não se intimide pelo jargão!
Então usamos uma pele de vidro pra limitar num certo ponto o interior e o exterior. Mas isso não limita a casa e o jardim. O jardim é interno & externo. Tudo é a casa.

Você entra na casa por um hall que distribui o acesso ao home office e de maneira mais discreta ao lavabo. O home office tem uma janela para o jardim interno e outra, uma grande porta de correr de vidro, voltada para a lateral de acesso ao quintal.

Veja bem. Se esse home office tivesse meramente uma janela virada pra esse recuo lateral, ele ia virar um corredor. Um espaço perdido. Agora, dessa forma, o corredor passa a ser um pano de fundo ajardinado para o home office, por onde vai passar alguém de vez em quando.
Isso é intenção. É conceito. É premissa. Faz parte do nosso partido arquitetônico. Dá coesão às nossas soluções de projeto.
A janela que está voltada para o jardim interno, por sua vez, vai integrar visualmente o home office à área social da casa. Mas de maneira filtrada, em meio às folhagens do jardim.
Quem não quer trabalhar num lugar assim?

#081.07 A construção do olhar

A escada que dá acesso ao pavimento superior está disposta sobre esse jardim interno.
Você não tem um jardinzinho embaixo da escada, não. Jamais! Quase que o caso é que você tem uma escadinha em meio a um grande jardim interno. É questão do olhar. O olhar que projeta os espaços.
E a chegada dessa escada no nível da área íntima não se dá em um lugar como um “corredor dos quartos”.
Você tem 3 quartos do lado sul — na frente do terreno — e a suíte master do lado norte. Entre esses dois blocos está a sua sala íntima. TV, videogame, leitura, bancada de estudos. Uma sala multiuso. A sala da família — ou family room, para os íntimos. A escada chega aqui.
Nessa sala formulada como um mezanino também vamos colher os frutos do jardim plantado no térreo. Vamos ter palmeiras com altura suficiente para compor a ambiência desse espaço.
Se quiser separar essa sala do restante da área social — acústica e/ou visualmente —, você pode ter paineis de correr, por exemplo. Mas, de saída, queremos promover a integração dos moradores — discutível, ótimo, outra hora.
O family room serve como o ambiente de transição entre o social e o íntimo.
Social, íntimo & serviço: são as 3 principais categorias do que chamamos de setorização. Arquitetura fala muito disso. É um conceito bastante fundamental. Mesmo em projetos comerciais, corporativos ou institucionais.
Elas acabam sendo relevantes também, de uma forma quase arquetípica — que representa ideias, comportamentos: símbolos comuns a todas as culturas.
Pano pra manga.
#081.08 Planta, sozinha, não é arquitetura

Por ora, vamos nos debruçar nesse guarda-corpo do mezanino e olhar para baixo.
O jardim interno está ali, todo “pimpão”, ornamentando uma belezura de escada. Uma pele de vidro desfazendo a barreira entre dentro e fora.
A gente podia ter aqui um espaço super alto. Com teto de vidro. Ia ser um ambiente classudo, de proporções monumentais.
Mas a gente não quer isso, não. A gente quer se sentir em casa mesmo. Só isso.
Seu arquiteto te traz então, a ideia de que esse espaço seja coberto por um telhado de uma água. A queda do telhado acompanha a inclinação da escada, garantindo a circulação.
Todo o resto da casa vai ser coberto com laje plana. Mas esse pedaço vai ter telhado. Telhado dá muito cara de casa — de novo, o arquétipo. E você já “viu que isso era bom” (Gênesis — veja bem, a referência não é de uma banda de rock progressivo, por favor).
Bom porque na parte mais baixa ele diminui a altura da pele de vidro — custosa. Bom porque na parte alta ela não precisa estar alinhada com o teto do family room. Ela pode deixar uma janela alta acima da cumeeira. Você precisa ver isso em corte.
Corte é importante. Planta, sozinha, não é arquitetura. Corte, sim. Por isso que é difícil de entender corte. Rita Lee podia ter cantado — em “Amor e Sexo” — que planta é prosa, corte é poesia; ou, fazendo a analogia com a letra: planta é amor, corte é sexo.
#081.09 Pé direito primeiro

Enfim. No final das contas, estamos falando sobre pé-direito.
Sempre quis saber de onde veio essa expressão.
Parece que foram os franceses. Deram apelido de “pé” pras colunas de uma construção. Elas são instaladas na perpendicular entre o chão e o teto. Em ângulo reto, direito. Por consequência, o comprimento da coluna acaba sendo equivalente à altura entre o chão e o teto: “pé-direito”.
Não sei se eu gostei dessa explicação. O mistério às vezes era mais atrativo. Mais confortável é você saber que vai ter boa sorte se entrar em casa com o pé direito — agora sem o hífen.
Essa também tem explicação, segundo o Google, vinda desde a Grécia clássica. Em respeito aos deuses, você tem que calçar primeiro a sandália no pé direito.
Ainda, na visão dos romanos, o lado dexter (direito, literalmente) era auspicioso, e o sinister (esquerdo) associado ao infortúnio. “Destro” acabou se tornando sinônimo de habilidoso. E “sinistro” de sombrio.
As tradições de rituais hindus de mais de 2.000 anos também orientam a noiva a entrar em casa com o pé direito primeiro.
E por aí vai: “I ain’t superstitious / But a black cat crossed my trail” (Willie Dixon).
Fato é, que a altura de um ambiente importa muito. Comunica. Conforta. Comprime.
A escola clássica da arquitetura trabalhava com recomendações matemáticas para definir as proporções adequadas entre largura, profundidade e altura dos espaços.
A escola moderna subverteu essa ordem. Passou a trabalhar com esse recurso da diferenciação de altura dos espaços de maneira mais livre. Mas com certeza não menos criteriosa. Intencionalmente menos harmoniosa e estruturalmente mais expressiva.
A diferenciação dos pés-direitos em um percurso vai revelar um tipo de hierarquia dos espaços. Vai comunicar qual espaço é mais público e qual é mais privado. Um quarto de dormir alto demais não é confortável, assim como um salão de festas baixo também não.
Esses sentimentos são instintivos.
Lembra que eu falei que o arquiteto projeta a partir de um sentimento? Bom… Talvez seja justamente o oposto disto!
— Se veio primeiro o ovo ou a galinha, não vem ao caso.
#081.10 De dar gosto

Vamos retomar nosso percurso.
Quando falamos sobre percursos está claro que estamos falando de movimento.
A gente pode falar do percurso do sol e do desenho das sombras no chão ou nas paredes. Ou do percurso da água da chuva caindo do telhado até as galerias. Por aí vai.
Mas agora só quero que você pense no movimento que você vai fazer circulando por essa casa. Quais são os seus percursos?


Quando você chega de carro. Como chega da rua e desce a rampa da garagem? O que você vê? Por onde você passa? Como é a descida do carro e o percurso até a porta de entrada?

Quando você entra na casa. Como é essa chegada? Pra onde você pode ir? Pra onde o próprio espaço naturalmente de direciona? Você se sente convidado, ou repelido, de alguma maneira? Você se sente perdido ao chegar nessa casa?

Quando você já está dentro da casa. Passou pela entrada do lavabo e home office. Tangenciou o jardim interno e a escada da área social. Já seguiu em linha reta pelo eixo de circulação muito bem demarcado desde a porta de entrada.

Você chega num ponto aonde, ali sim, à direita, você tem um pé-direito duplo. Um ambiente social de estar. A TV ao fundo está num local com pé-direito baixo. Assim como uma mesa pequena de jogos.
À esquerda, cozinha e sala de jantar integradas, mas com pé-direito também mais baixo.




Esta conformação dos espaços te agrada? Este dinamismo fala alguma coisa pra você? Você está começando a sentir arquitetura. É de dar gosto!
Nós estamos falando de percursos do ponto de vista de sensações e sentimentos. Mas de uma maneira mais lógica, isso também diz respeito ao conceito de circulação.
Eu tenho que prever muito bem os espaços de circulação no seu projeto. Preciso adotar medidas adequadas, claro. Mas num nível bem básico, setorização & circulação formam um par conceitual essencial pro êxito da solução arquitetônica.
Você tem que saber o que quer — digo, eu tenho que projetar com intenção, com propósito. Tenho que dar significado pras minhas concepções. Os quartos podem estar longe da sala, se é isso que você quer. Você pode quebrar uma edificação em blocos. A circulação pode ser longa, mas atrativa. Com vistas pro entorno, iluminação adequada — por exemplo.
Distanciamento ou proximidade entre os ambientes não são nem obrigatórios nem padronizados. São parte de uma conformação teórica, prática e simbólica do projeto de arquitetura.
081.11 Sua casa, minha casa

Eu gosto muito de trabalhar com o desenho do forro — e consequentemente com a iluminação —, pra reforçar o traçado das minhas circulações. Não só pra definir os pés-direitos ao longo dos meus percursos mas também pra demarcar a setorização da minha casa. — Sim, perdão, mas sua casa acaba sendo um pouco minha também!
Gosto de usar cores, texturas e revestimentos no teto, pra complementar o sentido da volumetria da minha arquitetura.

Forro e iluminação são tão negligenciados! Enquanto aqui, só em 2 linhas, você pode ver a força conceitual que essa planta carrega. Vamos botar mais fé nisso, pessoal.
Acontece que o resultado e o efeito definitivo do trabalho de um projeto de forro e iluminação não transparecem no material gráfico que nós produzimos.
Você só vai saber a altura exata da cúpula principal da Basílica de São Pedro (no Vaticano) indo até lá. Olhando pra cima lá de baixo. De cima, olhando lá pra baixo.
Não são os 120m até o lanternim. Não é o equivalente a um prédio de 40 andares. A altura exata não é de quase 138m até o topo do cruzeiro que coroa a cúpula. Os sentimentos que um espaço desse vulto carrega não cabem em metros nem em pés.
Arquitetura fala disso. Arquitetura fala. Ponto.
Tem que falar.
Se for muda, desconfie.
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” (Mateus, Marcos & Lucas — veja bem, de novo, a referência não é de um “trio sertanejo”, pelo amor.)
P.S. Quando for a Pequim, queira conhecer. O Leeza SOHO (2019, Zaha Hadid Architects) é atualmente o prédio com o átrio mais alto do mundo — que não pode ser medido pelos seus quase 195m, nem por ser 16m mais alto que o átrio do hotel Burj Al Arab de Dubai.
#081.12 Você só quer ser feliz

Na nossa introdução sobre esse projeto, eu citei algo sobre brincar com água e com fogo.
Estamos falando essencialmente sobre os nossos espaços de lazer. Uma casa de respeito precisa disso. “All work and no play makes Jack a dull boy”, diz o ditado gringo, eternizado por Kubrick no terror psicológico de The shining (1980).
Dizem que a diferença entre o menino e o homem é o tamanho dos brinquedos.
Eu estou enfatizando o aspecto lúdico de uma construção. “Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida / Cuidado, companheiro / A vida é pra valer / E não se engane não, tem uma só” — sim, Vinícius, Vininha velho, saravá.
Justamente por ser uma só. Precisamos de lazer & entretenimento. “A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte / […] A gente quer a vida como a vida quer”, diriam os Titãs.
Uma construção feita pra pessoas tem que se planejar para esses momentos. Os melhores, talvez. Especialmente quando você está fazendo o movimento do “apertamento” metropolitano para o palácio suburbano.

Você não quer ter razão. Você só quer ser feliz.
A forma do espaço construído condiciona o seu jeito de viver. Aqui nessa casa, tem um espaço bem largo pra essa brincadeira de felicidade.
Do lado de dentro, primeiro, a mesa é de bilhar, convertida em mesa de jantar nas horas vagas.

Daí você tem como um alpendre nas saídas para o quintal. O avanço do pavimento superior com relação ao limite do piso interno inferior, forma um espaço de transição entre interno e externo. Protege a área interna do sol direto e da chuva. Como na tradicional Casa Grande luso-brasileira.
Esse é outro conceito que o arquiteto gosta de trabalhar. Espaços cobertos mas abertos. Abertos em um, dois ou três lados, por exemplo. Cada um tem sua função, sua hora, sua razão de ser.

Aqui a gente tem uma churrasqueira bem na frente da cozinha e da sala de bilhar — quer dizer, jantar. Pronta pras brincadeiras com fogo, o perfume sublime da gordura subindo aos céus. As refeições ancestrais ao redor de uma távola redonda com mais cobiçados frutos da caça moderna.

Do outro lado, na frente da sala de estar, a piscina. Lagartear no sol e se jogar na água. Refresco pra crianças de todas as idades: de zero a cem! E um espaço de estar embaixo da projeção do andar de cima. O tal espaço de transição. Pra você curtir o ambiente da piscina sem tomar sol. Vale também.
Todos esses espaços são pensados pra serem sempre circundados por jardins densos e escultóricos. Minha formação prática em arquitetura paisagística obriga meu desenho arquitetônico a isso. A esse tipo de pensamento. Tem horas que eu não sei se estou projetando a casa ou o jardim.

#081.13 Autocuidado etc.

Vejam aqui o exemplo dessa suíte master.
Você tem um quarto de dormir e tal, normal, sem grandes “invencionices”. Mas a porta do banheiro é de correr — acaba ficando sempre aberta.

E o pano de fundo desse banheiro — além do trio ducha & vaso & pia — é uma banheira na frente dum jardim suspenso, com um janelão. E por trás um elemento arquitetônico que funciona como vedo visual e participa da composição da volumetria da fachada.
Ou seja. Você vai ter um banheiro no meio do jardim e o vizinho não vai te ver. Vai entrar luz e vento naturalmente. Você não vai querer sair desse banheiro.
Os banheiros estão em alta mesmo, com essa onda de autocuidado etc. Tá valendo.

E você ainda tem um terraço saindo desse quarto. Tem espaço suficiente pra uma mesinha com duas cadeiras. Só que aqui ela não é coberta. Não com laje pelo menos.
O arquiteto paisagista (eu mesmo, no caso) veio e desenhou um volume vazio composto apenas pelas arestas feitas em tubos metálicos. Daí você cria um pergolado de cabos de tensionados pra colocar uma trepadeira pra crescer em cima deles.
Tirando que se chover, molha; o terraço fica sendo: coberto.
P.S. Eu não acho que guarda-corpo de vidro é melhor que ninguém. Muitas vezes um bem simples de aço faz bem a função da transparência até. Mas aqui, tinha que ser de vidro. Tinha, sim!

